segunda-feira, 13 de janeiro de 2014

O poder da redenção



A política americana está cheia de histórias de culpa e perdão. Ascensões e quedas. Expetativas e desilusões. Crime e castigo.

Quem tiver mais 30 anos ou mais lembra-se bem do que aconteceu com Bill Clinton na década de 90 (será que Monica Lewinsky ainda tem aquele vestido guardado?).

Num país com um forte pendor religioso, o lado moralista do discurso público, vertido por exemplo no forte escrutínio da vida privada dos políticos, é dominante. Mas mais poderosa ainda é a ideia da redenção.

Talvez uma coisa esteja diretamente relacionada com a outra: perante a panela de pressão mediática, e o olhar global de uma opinião pública cada vez mais dotada de instrumentos para seguir candidatos e titulares de cargos públicos, sucedem-se as situações de políticos de elevada responsabilidade que são apanhados em situações embaraçosas.

Não são só as histórias de alcova. Essas são as mais escandalosas no momento (Elliot Spitzer, Anthony Weiner, David Petraeus, Chris Lee, Mark Souder, Tom Ganley, a lista continua...), mas tendem a cair no esquecimento. E têm um denominador comum: quem pretender continuar a ter uma carreira política, tem que dar a cara, no púlpito mediático, e pedir perdão pelo que fez.

Se tiver a mulher (oficial) ao lado, ajuda bastante.

A semana passada mostrou outra situação ainda mais interessante, do ponto de vista da resposta comunicacional.

Chris Christie, sobre quem já aqui escrevi, estava a gozar o estado de graça de ter sido reeleito com 60% como governador da Nova Jérsia. É um republicano diferente, não alinha nos disparates da direita radical, pensa pela sua cabeça.

Numa altura em que os democratas têm fartos motivos para detestarem os políticos republicanos, muitos eleitores do partido de Barack Obama simpatizam com Chris Christie. Grande parte deles até diz, nas sondagens, que era capaz de votar nele.

Ora, isso faz de Christie, rotundo e pouco ortodoxo governador republicano da Nova Jérsia, um pré-candidato muito bem colocado para as presidenciais de 2016.

Nos últimos dias, no entanto, Chris esteve em autêntico «damage control» mediático.

Um escândalo rebentou no governo estadual de NJ: aparentemente por vingança política, pessoas muito próximo de Christie (entre as quais uma assessora Bridget Anna Kelly, que viria a ser demitida) provocaram engarrafamento na ponte George Washington, que serve zonas com «mayors» democratas.

O caso, que mesmo na América chega a ser um pouco bizarro, terá acontecido no pós-eleições para o governo estadual, que Christie venceu facilmente.

O «mayor» de Fort Lee recusou-se a apoiar a reeleição de Chris e, de acordo com a acusação do Ministério Público da Nova Jérsia, emails escritos por pessoas do «staff» de Christie (nomeadamente de Bridget Anne Kelly, que era sub-chefe de gabinete do governador) apontavam para essa ameaça, que viria a concretizar-se. «Hora para alguns problemas de trânsito em Fort Lee», escreveu Bridget a um executivo da Autoridade Portuária, em agosto passado.

Muitos falaram logo de perseguição política a Christie, cuja independência começa a incomodar no Partido Republicano.

Outros sentenciaram logo: «acabaram as ambições presidenciais do governador da Nova Jérsia».

Mais devagar, por favor: Chris reagiu com um pedido de desculpas ao melhor nível da política americana. Confessou-se «embaraçado», garantiu que «nada sabia sobre isto» e demitiu a principal responsável pelo episódio.

Nunca subestimem o poder da redenção nos EUA.

Germano Almeida

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